Espetáculos
Silêncios

FICHA TÉCNICA

SILÊNCIOS

Exposição de Paula Aguas
Curadoria | Fernanda Pequeno

FICHA TÉCNICA

Performers | Betina Guelmann, Paula Aguas e Toni Rodrigues
Figurino | Paula Bohm
Fotos | Carol Pires, Manuel Aguas e Paula Aguas
Arte Gráfica | Thomaz Velho
Assistente de Produção | Elisa Colepicolo
Produção | Aguas e Rocha Produções Artísticas
Apoio | CasaGira146 e Occam

SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E ECONOMIA CRIATIVA DO RIO DE JANEIRO.
Governador | Cláudio Castro
Secretária | Danielle Barros
Chefe de Gabinete | Claudia Raybolt
Superintendente de Artes | Cristina de Pádula Cattan

CASA FRANÇA-BRASIL
Direção | Tania Queiroz
Coordenação Artística | Aline Beatriz de Souza
Coordenação Administrativa | Rodrigo Leite
Pesquisa e Memória | Luisa Lacerda
Comunicação | Adrielle Dantas e Heitor Alvarenga
Projetos Especiais | Carla Maldonado
Jurídico | Patrícia Meireles
Operações | Thailane Wandin, Raiane Lima e Marcelo Reginaldo
Manutenção | José Pires, Marcos Vinicius Nascimento e Marcos Felipe Carvalho

RELEASE

“Eu me expresso melhor pelo silêncio*”.
Clarice Lispector

Tal qual os silêncios da personagem Ângela Pralini no livro Um sopro de vida, de Clarice Lispector, esta primeira exposição individual de Paula Aguas trata deles como plenitude e presença, mas também enquanto vazio, ausência. A mostra da multiartista – bailarina, atriz e gestora da Casa Gira que, desde 2015, também se dedica às artes visuais – apresenta sete trabalhos que “falam baixo”. As obras, produzidas entre 2019 e 2025, lidam com a relação entre quietude e movimento e são inéditas em sua grande maioria.
Onde encontrar o silêncio? É possível cultivá-lo coletivamente, compartilhá-lo? Como silenciar corpo e mente? Pode uma exposição favorecer uma experiência de silêncio? Tais perguntas ecoam no espectador ao visitar esta mostra. O vídeo Som da noite, por exemplo, traz gravações de grilos e outros insetos, seres mais-que-humanos cuja sonoridade nos transporta para uma atmosfera noturna e não-urbana.
O trabalho central, homônimo ao título da mostra, é uma instalação movente ativada pelo corpo de três bailarinos intérpretes: a própria artista, Betina Guelmann e Toni Rodrigues. A cada visita, o espectador poderá encontrar uma nova configuração da instalação, que passa a ser montada de uma maneira diferente a cada ativação. Os três moldam o silêncio através da mobilidade de seus corpos e dos elementos cênicos – galhos, folhas secas, bambus em equilíbrio instável – que fazem o espaço, exteriorizando seus silêncios internos. Tornar-se galho ou folha, virar pedra, assim, exercita possibilidades de silenciar.
Em Hoje, a artista nos convida a meditar, concentrando-nos no agora, tarefa tão difícil quanto urgente num mundo em aceleração desenfreada. As fotografias da série Vontade de ficar pra dentro apontam um movimento dentro-fora, tal qual Ângela Pralini, ao enunciar os seus abismos de silêncio enquanto “o dia corre lá fora à toa”2. Já a série Atravessamento ontológico traz fotografias de olhos de seres humanos e mais-que-humanos, inserindo o espectador também no foco. A presença dos espelhos abre possibilidades de atravessamento: quem sabe confrontar a própria imagem refletida possibilita um olhar para dentro?
Por fim, Umbilical materializa a experiência do tempo: o trabalho foi realizado pela artista enquanto acompanhava a mãe em tratamento de hemodiálise. O cordão azul que liga mãe e filha foi tecido ao longo de quatro longos anos, apontando que “nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro”3.
Como podemos ver na exposição, as obras materializam as buscas da artista por cultivar silêncios. Seja pela travessia do luto, seja na meditação ou no contato com a natureza, os trabalhos aqui elencados vão de encontro à “Vontade de ficar para dentro”, que funciona como uma espécie de frase-síntese. A desaceleração proposta por Paula Aguas, tão escassa no mundo superexcitado em que vivemos, é mais do que necessária para que não adoeçamos de esgotamento devido ao excesso de estímulos. É nesse sentido que a arte pode se tornar terreno fértil de possibilidades, ao propor experiências outras, como a que encontramos neste jardim de silêncios. Afinal, tal como nos fala Clarice Lispector: “‘neste momento’ é coisa rara porque só às vezes piso com os dois pés na terra do presente: em geral um pé resvala para o passado, outro pé resvala para o futuro”. E fico sem nada”4. Esta exposição é um convite a estar presente.

Fernanda Pequeno, maio de 2025.

 

(As frases entre aspas ou identificadas com asteriscos foram retiradas de: LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco digital, 2020, respectivamente *p. 24, **p. 7, ***p. 7 e ****p. 25.)

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